Companhia Nao d’amores. Nise, a tragédia de Inês de Castro

Os mares do teatro pré-barroco afiguram-se-nos inabarcáveis repetidas vezes, e seria necessária uma autêntica frota de Naos d’amores para podermos abordar a totalidade das apaixonantes rotas que ainda nos falta navegar. Neste caso, vamos à descoberta de um espaço insuspeito, o da tragédia renascentista, integrado pelos humanistas do século XVI (Bermúdez, Virués, Cueva, Argensola), que pretenderam criar, na língua castelhana, um teatro baseado nos princípios e modelos do mundo antigo. Apaixonante desafio este de penetrarmos no âmbito de uma dramaturgia eminentemente universitária, de pendor senequista, que luta por chamar a si a simplicidade da tragédia antiga e a sua preceptiva aristotélica.

Novas fórmulas métricas, como o hendecassílabo solto, combinado em estrofes sáfico-adónicas quando se consolida o aparecimento do coro, afiguram-se-nos já espaços de imprescindível estudo, na nossa obsessão por entender, a partir da prática cénica, as formas que sustentam o passado e presente do nosso teatro clássico entendido em toda a sua magnitude.

Não é, porém, apenas o seu exercício formal que nos interessa, mas sim a grande preocupação temática sobre a qual constroem as suas tragédias: o problema do exercício do poder.

O príncipe como encarnação do bem, justificado pela ideia do vicarius Christi, constitui o modelo de conduta que se propõe ao povo, mas, neste período, surge outra via que assenta nas ideias políticas de Maquiavel, rompendo com esta tradição ético-cristã. Este novo modelo traz à tona toda uma série de contradições que nos levam a questionar a ideia do soberano reverenciado, cujas ações estão forçosamente marcadas pela justiça e pela equidade, em oposição à figura do tirano. Jerónimo Bermúdez, com esta perspetiva, oferece-nos a suculenta possibilidade de investigarmos as ligações políticas com a nossa contemporaneidade.

A partir das suas duas únicas peças teatrais, Nise Lastimosa e Nise Laureada, construímos uma dramaturgia unitária, que nos permite aprofundar esta visão do mau governo, através de uma das histórias mais conhecidas da tradição hispano-lusa: a lenda de Inês de Castro. Mais uma vez, esta natureza trágica, a de uma história de inevitável e terrível desenlace que todos conhecem, mas que se revive como nova sobre as tábuas, repetidas vezes. E, como pano de fundo, a identificação de um público que não centra a sua atenção na intriga, mas sim nas diversas maneiras de voltar a transitar pelo que já se sente como próprio.

Ana Zamora

SINOPSE

Fortes pressões políticas levam o rei D. Alonso de Portugal –o histórico rei D. Afonso– a decretar a execução de Inês de Castro, casada secretamente com o seu filho, o infante D. Pedro. Três cortesãos perpetram o assassinato legal. D. Pedro, quando toma conhecimento da notícia, acaba por perder temporariamente o juízo e, assim que o recupera, declara guerra ao pai. Os assassinos fogem para Castela. Morto o rei D. Alonso, D. Pedro sobe ao trono de Portugal. Proclamado rei em Coimbra, desenterra o cadáver de Inês, casa publicamente com ela e cinge-lhe a coroa real. A extradição dos antigos assassinos, entregues pelo rei de Castela ao seu homónimo português, faz com que dois dos responsáveis diretos pela morte de Inês sejam julgados aos olhos do espetador.

 

FICHA ARTÍSTICA

Dramaturgia e direção
Ana Zamora

Interpretação
José Luis Alcobendas
Javier Carramiñana / Marcos Toro
Alba Fresno
José Hernández Pastor
Natalia Huarte / Irene Serrano
Eduardo Mayo
Alejandro Saá / Ernesto Arias
Isabel Zamora

Direção musical
Alicia Lázaro

Assessor de verso
Vicente Fontes / Fuentes de la Voz

Figurinos
Deborah Macías (AAPEE)

Cenografia
Ricardo Vergne

Iluminação
M. A. Camacho

Coreografia
Javier García Ávila

Assessor de Máscaras
Fabio Mangolini

Assessor de Fantoches
David Faraco

Ajudante de Direção
Veronica Morejón

Ajudante de Cenografia e Figurinos
Irma Vallés

Realização de figurinos
Ángeles Marín
Maribel Rodríguez

Realização de tecidos artesanais
La Real Lana

Realização de cenografia
Purple Servicios Creativos

Realização de adereços
Ricardo Vergne
Miguel Ángel Infante

Direção Técnica
Fernando Herranz

21 y 22 de Outubro de 2021 | Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra)


DISCIPLINA
ARTES CÉNICAS

CUÁNDO
21 y 22/10/2021

ONDE
Teatro Académico de Gil Vicente
Praça República, 3000-34
COIMBRA

BILHETES
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SITES
Nao d’amores

COLABORAM
Teatro Académico de Gil Vicente

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